quarta-feira, 5 de agosto de 2015

DICA CINEMATOGRÁFICA: Terminator 5 - É ruim, mas eu gostei!

"(...)
He was turned to steel
In the great magnetic field
When he travelled time
For the future of mankind

Nobody wants him
He just stares at the world
Planning his vengeance 
The he will soon unfurt
(...)"


Confesso que assisti ao mais recente filme da saga Exterminador do Futuro, Terminator Genisys(Terminator 5) e, ao contrário da maior parte das opiniões que podem ser vistas nas redes sociais, blogs e podcasts, gostei do filme. Sim, podem reclamar e xingar muito no twitter pela puta falta de sacanagem de minha afirmação(só os fortes entenderão). Não posso mentir, me diverti um bocado vendo este filme de merda.
Sério. Adorei!

Mas não sejamos apressados ou melhor, como diria Jack - O Estripador, vejamos isso parte por parte. De início, esse filme que se propõem a revitalizar a série Exterminador do Futuro(que desde Terminator 3 andava mal das pernas), o faz do mesmo modo que a FOX  fez em X Men: Dias de um Futuro Esquecido. Ele usa o conceito de viagens no tempo e das consequentes mudanças do contínuo temporal para apagar todos, ou ao menos parte, dos desastrados filmes anteriores(que nunca haveriam ocorrido de acordo com essa confusão). Já imagino agora que muitos de vocês estejam se perguntando "What the fuck is this?!" e, não se preocupem, explico. Viagens no tempo, como a próprio nome já deixa subentendido, se constituem na possibilidade de se deslocar livremente de uma época para outra, sendo que um dos primeiros autores a introduzir o conceito foi H.G Wells, no seu livro A Máquina do Tempo. Entretanto, embora no livro citado o protagonista tenha viajado para o futuro, a possibilidade de se deslocar no tempo livremente trás uma questão óbvia. Viajar para o passado não poderia alterá-lo? O tempo(passado/presente/futuro), pode ser alterado ou é algo sólido e imutável? Em resumo, viajar no tempo desafiaria o "destino" ou apenas o confirmaria?


Confuso ou não, adorei essa cena! hahahahaha
A propósito, Khaleesi cadê os dragrões?!

Bom, a resposta a pergunta anterior depende do universo ficcional de que estamos falando(nem a pau tento discutir as possibilidades disso na física quântica). Em universos como Donnie Darko, Efeito Borboleta e no próprio Terminator 5, o tempo é algo mutável, então alterar o passado pode alterar o futuro(o presente de onde se partiu a viagem). No entanto, o problema é que durante todos os outros filmes da saga Terminator, o tempo sempre se mostrou algo imutável. Sim pequeno hater, eu sei que a Skynet sempre mandava robozinhos para matar o John Connor ou a mãe dele ou o papagaio dele. Entretanto, nenhum desses robôs, contra todas as chances a seu favor, tiveram sucesso(o que prova que o tempo é imutável). Mais ainda, se algum deles tivesse matado John Connor e o mesmo nunca tivesse existido no futuro, por que razão o mesmo robô teria sido enviado para o passado? O robô nunca teria existido assim como a pessoa que ele matou! Pior, se a mãe de Johnn Connor não houvesse sido caçada por um robô assassino(The Terminator-1984), o famoso herói da revolução das máquinas nunca teria nascido(não nos esqueçamos que o pai dele veio do futuro). Em resumo, a própria Skynet criou John Connor! E não me venham com a ideia de "linhas de tempo paralelas", pura balela!!! Isso é um furo imensurável no enredo e vocês sabem, mesmo que não admitam!

WTF!!! Dr. Who??? O que aconteceu com você?! E não posso deixar de dizer que sua nova Sonic Screwdriver está incrível!!! (se você entendeu isso, seu nível nerd está muito, muuuuuito alto)
Sim, eu sei, esse papo de viagens no tempo é mortalmente confuso. Entretanto, enredos cujo plot envolve viagens extra temporais são normalmente muito confusos,  fora que os roteiristas de filmes normalmente são também bastante preguiçosos ou inaptos para esclarecer melhor suas histórias. E falando em preguiça e inépcia, não posso deixar de dizer que foram esses os dois principais elementos que construíram o roteiro do Terminator 5. Houve a preguiça de se criar boas cenas, bons diálogos ou sequer uma história decente, e houve uma imperdoável inaptidão para repetir os velhos jargões e clichês que nos fazem amar tanto filmes de ação. Imagino agora que depois dessa pilha de defeitos e malfeitos meu leitor, meu incauto e desinteressado leitor, esteja se perguntando o que diabos gostei nesse filme. Bom, sabe aquele ditado: "tão ruim que é bom?". As cenas  de ação são passáveis, embora tenha muito menos sangue e suor que nos longas anteriores, os diálogos são fracos, mas algumas piadas até que funcionam e, mais importante de tudo... Temos FUCKING robôs assassinos do futuro!!! Por pior que seja, qualquer filme com robôs assassinos do futuro carregando escopetas e armas laser merece ao menos um voto de confiança(sqn).


Awesome!!!

Sim, esse é um péssimo motivo para indicar um filme para qualquer um, mas convenhamos, a maior parte de nós, senão todos nós, já assistimos a coisas piores pagando. Portanto, recomendo esse filme para todos aqueles que desejam não uma obra prima, mas apenas um filme bobo, exagerado e engraçadinho. No fundo, apenas um bom pretexto para ir ao cinema e comer pipoca.





segunda-feira, 23 de março de 2015

DICA CINEMATOGRÁFICA: Better Call Saul - Eu adoro esse cara, mas jamais(JAMAIS) quero ser ele(please god).


Jesse Pinkman explicando a necessidade de assistência jurídica "especializada" para Walt.


Confesso que pensei em vários jeitos de começar este comentário sobre a recente série do canal AMC, Better Call Saul. Pensei em citar o fato de que ela não é apenas um spin-off de uma das melhores séries que algum dia já vi(Breaking Bad), mas também que ela é sobre o melhor personagem de toda série (e não estou exagerando quando digo isso). Também pensei em iniciar esse texto recontando algum caso ou citação interessante do personagem. Mas não, pensando bem, a melhor forma de abrir esse pequeno momento de insanidade é contar como vim a saber da estreia da série. Não, não foi através de um comercial ou até mesmo de alguma aleatória fonte de notícias nerd ou geek. Foi através de um amigo meu, particularmente avesso à assistir séries ou coisas do gênero. Um colega de profissão(ou mais ou menos isso, já que ainda não passei na OAB), para ser mais exato. Quando me indicou a série, o mesmo o fez bastante aterrado, dizendo que o protagonista da série encarnava a pior perspectiva profissional para qualquer advogado ou jurista recém formado. Confesso que achei exagero(eu adorava esse personagem em Breaking Bad), sendo que assisti sem demora ao episódio piloto da série. Demorou horas para eu me recuperar do impacto(assistir ao Anticristo do Lars foi menos traumático). Sim, Saul Goodman é ainda um dos meus personagens de seriado preferidos. Mas god, ALL GODs, please, jamais me deixem me transformar em algo parecido com ele!!!
Embora eu realmente não queira ser como ele, adoraria alguns cartões como esses.
E agora fica evidente a razão pela qual a OAB proíbe que os  seus advogados de fazer propaganda de seus serviços abertamente...


Antes de se tornar o respeitável, ou nem tão respeitável, advogado mostrado em Breaking Bad, Saul Goodman(ou melhor, James McGill, seu nome de nascença), poderia apenas ser descrito como um "merda". E não se enganem, ele não era um "merda" como eu ou você(mas se você for tão merda quanto ele, sinta-se envolvido pelo meu abraço imaginário de compaixão nesse exato momento), ele era o rei dos perdedores. Não só ele poderia ser descrito apenas como um sofrível advogado de porta de cadeia, mas também como alguém existencialmente "fudido". Seu carro era algo digno de pena, ele tinha como escritório uma saleta sombria e minúscula dentro de um salão de cabeleireiro (do qual o aluguel estava atrasado inclusive), ele havia sido chutado de seu antigo emprego em um bom escritório e a miséria parecia bater sorridente à sua porta. Como já disse, ele estava "existencialmente fudido", e era a representação viva daquele sórdido pesadelo que ocasionalmente acorda todo o advogado no meio de uma noite fria e não lhe permite voltar ao sono. 
Compassivos abraços imaginários para todos os "losers" do mundo.
Please God!!! No. No, noooooooo!
Mas saindo de minhas fobias profissionais e voltando à série, ela se propõe a explicar como a persona Saul Goodman, com seus espalhafatosos trejeitos e práticas absolutamente questionáveis, surgiu de James McGuill, um perdedor por essência. Ou melhor dizendo, como um advogado criminal se tornou um advogado criminoso, parafraseando Jesse Pinkman. Não posso deixar de dizer, que os produtores da série são os mesmos de Breaking Bad, sendo que só isso já é suficiente para atestar a qualidade da série que tanto em enredo, atuações e produção está longe de deixar a desejar da série a qual se originou. Embora, entretanto, assuma desde o início um tom menos sério que ela, algo mais condizente com o seu protagonista, que paira eternamente entre o ridículo e o sublime(embora quase sempre mais para o primeiro). 



Não posso me esquecer de dizer também, que a série é uma ótima forma de revisitar alguns excelentes personagens que foram criados em Breaking Bad. Embora nada relativo a Los Pollos Hermanos ou ao império criminoso de Gustavo Fring já tenha sido citado, alguns personagens da série original já foram introduzidos no novo roteiro, como Nacho Varga, Tuco Salamanca e o meu preferido, Mike Ehrmantraut. O ultimo, inclusive, parece que foi introduzido de forma indelével (e absolutamente memorável) na trama, algo que realmente me deixa satisfeito. Creio que os antigos fãs de Breaking Bad se lembrarão dele ainda como, simplesmente, o personagem mais bad ass de toda a série, perdendo nesse quesito talvez(talvez) apenas para Gustavo Fring, que imagino que também será brevemente introduzido no spin-off.

No mais, recomendo Better Call Saul a todos que queiram ver uma boa e descompromissada série de tv. Sendo que faço uma especial recomendação a colegas e amigos que cursem direito. Sim, tenho uma especial apreciação por espalhar o horror pelo coração dos mais incautos e traumatizar para sempre amiguinhos de faculdade. Mas falando sério, creio que é o público jurídico, acostumado com a lógica ilógica de nossas práticas profissionais, que mais gostará da série que, no fim, apenas fala de um hipotético colega de sina que olhou perto e por tempo demais para o abismo.





domingo, 28 de dezembro de 2014

DICA LITERÁRIA: O Rei de Amarelo, de Richard W. Chambers - Carcosa, o lugar do impensável


“Seu olhar caiu sobre o livro amarelo que Lord Henry lhe enviara. O que seria isso, perguntou-se(...) após alguns minutos, estava absorto. Era o livro mais estranho que já havia lido. Parecia que, em vestes refinadas, e ao som do delicado de flautas, os pecados do mundo desfilavam, em silêncio, diante dele. Coisas com que havia sonhado  de modo vago tornavam-se reais para ele. Coisas que jamais imaginaram eram-lhe reveladas.”
O retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde

Segundo um velho ditado, somente tememos aquilo que não conhecemos, ou seja, o medo, em sua forma mais essencial, está sempre vinculado à ignorância, a um desconhecimento fundamental sobre o objeto temido. Tendo isso como premissa, torna-se claro que algo cuja compreensão estivesse além de qualquer possibilidade do entendimento humano, ou seja, algo que fosse essencialmente encoberto a nossos olhos, seria obrigatoriamente objeto por nós de temor, pode-se até dizer que personificaria o próprio medo. Nem preciso dizer, que boa parte das obras de horror e de suspense do cinema e da literatura levam em conta a mencionada relação entre o medo e o desconhecido na construção de suas narrativas e enredos. Alguns bons exemplos do citado, são filmes como Alien, o 8 passageiro, Sillent Hill (aqui tanto o filme de  quanto o jogo) e o seriado Lost, com a sua misteriosa fumaça negra ( que ninguém sabe, até hoje, o que diabos era).



“O mar quebra pela orla, vago,
Os sois gêmeos afundam sob o lago,
(...)"

Mas, embora de uso comum, raramente a relação entre o desconhecido e o horror foi tão bem traçada como na obra de autores como Richard W. Chambers e H.P Lovecraft. Ambos, inclusive, foram fundamentais para o desenvolvimento do citado postulado, já que construíram obras onde a impotência da ação humana frente ao desconhecido era total(o que faz, por consequência, que o horror seja ilimitado), e não meramente relativa, como comumente se mostrava nas obras do gênero e, na maior parte das vezes, mesmo hoje ainda se faz. Mas creio que não estou sendo claro ao meu querido(a) leitor(a) imaginário(a), portanto, desenho! Na maior parte dos filmes e livros de terror, existe um desvelamento progressivo do objeto temido, ou melhor dizendo, a cada vez que é confrontado com o objeto de medo, o protagonista e nós, os expectadores ou leitores, conhecemos o mais, portanto, o tememos menos. Em resumo, existe um anacronismo entre aquilo que se pretende, gerar medo, e aquilo que se faz, diminuir progressivamente o medo criado.

"(...)
As sombras se alongam,
Em Carcosa.
(...)"


O que os dois citados autores realizaram foi o processo contrário, a cada vez que temos mais contato com suas obras, cada vez menos sabemos o que se passa, assim como os protagonistas o que, portanto, faz com que o objeto pareça cada vez mais terrível, cada vez mais passível de causar medo. No entanto, existe uma curiosa diferença entre os dois, enquanto que H.P. Lovecraft desenvolve seu objeto de medo a partir de algo sólido, de um plano de existência avesso ao nosso, Chambers no seu O Rei de Amarelo, constrói o terror sobre o puro pesadelo, sobre uma existência que é puramente imaginária mas que, de alguma forma, vaza seu conteúdo para o mundo real. Em outras palavras, enquanto que o medo é uma relação de consequência no primeiro, o segundo tem o medo não como um elemento de narrativa, mas como um personagem.
"(...)
Estranha é a noite em que as estrelas negras sobem,
E estranhas luas os céus percorrem
Mas mais estranha é a
Perdida Carcosa.
(...)
Mas já vamos ao terceiro parágrafo e apenas mencionei de passagem o livro a que pretendia resenhar. Mais uma vez (e não será a ultima), me perdi em elucubrações e pensamentos vagos (meu triste fado). Mas deixando de lamentações, creio que já é mais do que hora de irmos ao que interessa, ou seja, o livro! Bom, de início, a obra O Rei de Amarelo foi publicada em 1895 e é formado, basicamente, por vários contos que vão desde o terror ao romance desesperançado. A propósito, desesperança é a palavra chave para se entender o livro, que em uma narrativa sã, por vezes também febril e ocasionalmente mesmo insana, sempre nos apresenta o mundo como um lugar decadente, onde os sonhos e as ilusões estão sempre fadados a naufragar frente à dureza do cotidiano. Sim, o sentimento de decadência do fin de siècle impera por todo livro, sendo que o amarelo com o qual se veste o onipresente Rei de Amarelo possui esse exato significado, decadência. 
"(...)
 Que morra inaudita,
Onde o manto em retalhos do Rei se agita;
A canção que entoarão às Híades na
Obscura Carcosa.
(...)"

A escolha da cor para as vestes do rei, a propósito, é bastante curiosa, embora talvez um pouco datada. Amarelos eram os livros franceses(lembrando que todos os contos têm como pano de fundo a França), normalmente de conteúdo polêmico ou liberal demais para a puritana sociedade inglesa, que os encarava como uma fonte de vícios e imoralidades. Não nos esqueçamos que estava em voga  a ideia de que certas ideias, certos pensamentos e palavras eram essencialmente perigosos, e deviam ser evitados. Sendo os espelhos da alma, os olhos eram uma relevante fonte para a corrupção da mesma. Nessa ótica, faz mais sentido que um dos motes centrais do livro, seja a ideia de uma peça fictícia, um livro, que causaria loucura a quem a lesse, e esse mesmo se chamaria O Rei de Amarelo, numa clara menção, aos citados livros franceses.
"Canção de m’alma, minha voz finada;
Morra sem ser entoada, como lágrima jamais derramada
Seca e morta na
Perdida Carcosa”.

“Canção de Cassilda”, em O Rei de Amarelo, ato I, cena 2

Mas imagino que muitos de meus leitores imaginários estejam se perguntando sobre Carcosa, já que provavelmente foi apenas pela menção dessa palavra que começaram a ler esse texto. Sim, apenas pela menção dessa palavra! Não, não estou exagerando. Essa curta e enigmática palavra, assim como a sua relação com O Rei de Amarelo, foram um dos pontos centrais na série True Detective, produzida pela HBO em 2014, sendo que não posso deixar de dizer, que a mesma é absolutamente obrigatória. Sim, todos, todo mundo, EVERYONE, deve ver essa série que, na minha opinião, foi de longe uma das melhores produções de todo o ano!!! Mas, obviamente, antes de assisti-la, leiam o livro, que dá tão poucas indicações quanto ao que seriam Carcosa e a real identidade do Rei de Amarelo quanto a própria série, mas que é fundamental para se entrar no clima menfítico e lovecraftiano que ela desenvolve. Deixo então, o trailer do seriado que mencionei, e a sincera recomendação que todos vocês, minhas pequenas crianças da noite, leiam O Rei de Amarelo. No mais, encerro essas tortas linhas invocando as bençãos do desconhecido sobre todos vocês. Adeus! 


sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Aleatórias: The Devil's Carnival 2 - Fa la la, it's off to hell we go


Fa la la, it's off to hell we go.
Cross you heart and hope to die,
It's off to hell we go
Fa la la, it's off to hell we go.
(...)
Off to hell we go - The Devil's Carnival song

Quem acompanhou os últimos textos do blog, particularmente o referente ao musical The Devil's Carnival, deve ter reparado que sou um fã, senão uma tiete, do citado longa. Tendo isso em vista, creio que ninguém ficou surpreso com o meu acesso de alegria quase histérico quando, no dia 5 de novembro, os organizadores do primeiro filme anunciaram a sua tão esperada continuação. Sim, The Devil's Carnival possuirá uma continuação onde poderemos ver o inferno galgado os degraus rumo ao céu. Isso será épico!!! Deem uma olhada no trailer oficial da sequência que foi lançado a pouco, não existe maneira de não se entusiasmar, fora que trilha sonora promete ser tão boa quanto a do primeiro filme!


DICA CINEMATOGRÁFICA: Mushishi - Nem amigos, tampouco inimigos, apenas estranhos vizinhos...


"O universo não foi feito à medida do ser humano, mas tampouco lhe é adverso: ele lhe é apenas indiferente".

Não sou um homem religioso(na verdade sou bem o oposto disso), entretanto, olhar para o céu sempre me dá um sentimento de transcendência. Não, não se preocupem, não tentarei lhes empurrar garganta abaixo minhas especulações e teorias sobre o sentido da existência. Não tenho certeza quanto a possibilidade de realmente se saber algo sobre o assunto, e tampouco me acho habilitado suficiente para saber alguma coisa dele melhor que qualquer outra pessoa. Apenas gosto de olhar para o céu, para o bailado das nuvens, para o lento caminhar do sol pela cúpula celeste, e pensar o quão grande e velho é o universo e o quão pequeno e jovem são o conjunto dos sonhos, desejos e interrogações a que chamamos de humanidade. Não me importa saber como tudo surgiu ou se alguém foi(e é) responsável por manter a ordem do relógio denominado universo. Não, sou um bocado pragmático quanto ao assunto. Nasci com um belo céu azul sobre minha cabeça, o mesmo que olhou placidamente pequenos peixes saírem do mar e se tornarem anfíbios e depois gigantes escamosos, e aceito o mesmo como algo eterno e indiferente a mim. Não sou arrogante, sei que o universo funciona sem e despeito de mim e não me entristeço com isso( ao menos não mais), apenas ocasionalmente olho para o céu e contemplo melancolicamente minha pequenez. Ah, o céu...

Mas creio que estou me perdendo em minhas predileções sobre o infinito. Confesso que essa é uma falta já muito peculiar à minha excêntrica persona. Entretanto, o principal motivo de eu haver começado a escrever essas tortas linhas não é dissertar quanto à minha mediocridade existencial, embora ela seja um fato. Não, esse texto se presta a falar sobre um anime, esse inspirado em um mangá homônimo, chamado Mushishi. Desde logo, tenho de dizer que desde Monster(link da crítica aqui) não encontro um enredo que tenha prendido tanto a minha atenção quanto o anime do qual falamos. No entanto, ao contrário de Monster que se constrói sobre uma longa e sólida narrativa onde os fatos se sucedem de forma rápida e abrupta, aqui existe um grande arco descontínuo de histórias independentes que apresentam um desenvolvimento essencialmente moroso. Dizendo de outra forma, enquanto que para compreender Monster se deve assistir a obra como um todo(episódio por episódio), Mushishi apresenta uma estrutura onde a cronologia ou sequer o tempo são claros ou importantes para a narrativa, na verdade, o anime é marcado pela descontinuidade, sendo que para ser compreendido, esse deve ser apreciado aos poucos, aos bocados, como um bom café, um vinho decente ou um cigarro de palha.



Mas deixemos de conversa e passemos logo ao enredo. Esse se passa no Japão, embora o período histórico seja de difícil determinação(pessoalmente, eu chuto que ocorreu não muito antes da Segunda Guerra).  O personagem principal, Ginko, é um especialista em Mushi, por isso um Mushi-shi( shi em japonês quer dizer mestre, ou seja, ele é um mestre em Mushi). Mas imagino que o meu leitor potencial, absolutamente enervado e em vias de abandonar o texto, esteja se perguntando: o que diabos é um Mushi? E por que esse idiota não explicou isso até agora?! Bom, quanto a primeira indagação, confesso que mesmo eu ainda não entendi exatamente o que eles são. Os Mushis são apresentados no anime como uma espécie de seres conceituais, eles encarnariam aspectos da vida e da existência, e de alguma forma regulariam o ciclo natural ou mais do que isso, todo o universo. No entanto, eles não existem de fato, digo, eles não são feitos de matéria existindo apenas em uma forma ideal, ou melhor, em um outro plano de existência, embora tenham influência direta no mundo material. Mas eu sei que isso soa confuso, então darei um exemplo...
Minuto em que algumas pessoas pensam: What the fuck is this shitt?
This is fucking serious man! What hell going on???
Fuckin'... what the fuckin' fuck... who did the fuck... fuck this fuckin'...how did two fuckin' fucks... fuck!

Sim, eu sou um sádico que mostra imagens gore para curiosos incautos, no entanto, por mais bizarra que as imagens anteriores pareçam a ideia por trás delas é incrivelmente boa(e não é gore). Nesse episódio, um dos melhores na minha opinião, uma criança vive há anos enclausurada na mais profunda escuridão. Não, ela não era cega, ao menos não no início. De alguma forma, seus olhos desenvolveram uma progressiva alergia à qualquer tipo de luz, de forma que, depois de algum tempo, ela só pode suportar viver na escuridão total. No entanto, no decorrer do episódio se descobre que a alergia à luz que essa criança possuía era causada por um Mushi, na verdade, por um específico Mushi que se alimentava da escuridão e havia parado nos olhos dela por puro acidente. Diante disso, o protagonista inicia um tratamento na criança, com o fim de que ela se restabeleça e os Mushis sejam expulsos de seus olhos. Nesse ponto, creio que é onde se mostra a maior genialidade do anime, já que os citados Mushis são mostrados não como vilões, tampouco como uma punição divina ou coisa que valha. Eles são apenas um aspecto da natureza que uma vez esbarrando na atividade antrópica podem causar consequências desagradáveis. Questionar a moral ou os motivos de um Mushi é tão razoável quanto fazer o mesmo quanto à uma micose, a uma ameba ou ao vírus do ebola. Sei que chamar isso de genialidade pode parecer de início meio estranho, mas consideremos o quão raro é vermos uma narrativa onde o problema ou o objeto de tensão da trama não são tidos como moralmente maus, ou são frutos da punição de uma transcende. Vivemos tempos maniqueístas e obras como Mushishi são absolutamente válidas para a reflexão de nosso lugar no universo.
Mas creio que me já me alongo demais em um texto que deveria ser essencialmente curto. Apenas gostaria de deixar patente minha recomendação à essa poética e reflexiva obra, que a despeito de sua morosidade ou da estranheza de seu plot, é uma das análises mais adultas e sóbrias que encontro sobre a real relação entre o homem e a ordem natural ou o universo (ou pelo menos em que patamares ela deveria se manter). Citando livremente uma das mentes que mais admiro, o infelizmente póstumo Carl Sagan, "o cosmos é interessante ao invés de perfeito, todas as coisas não fazem parte necessariamente de um grande plano, tampouco tudo pode estar necessariamente sobre nosso controle". No fim das contas, apenas somos mais um tripulante nesse pequeno pedaço de rocha que vaga pelo infinito.



sexta-feira, 31 de outubro de 2014

ALEATÓRIAS - Marvel is love - YES! YES! YES! YES!

Sei que já é pauta fria, entretanto, não posso deixar de comentar a melhor notícia que recebi em semanas! Não, não ganhei na loteria, não descobri que herdei uma fortuna de um parente rico distante, tampouco sucederei um trono e viverei o resto da minha vida em luxúria...pensando bem, a notícia não era tão boa assim #tristeza #vidademerda. Anyway, foda-se, estou feliz! A Marvel anunciou os filmes que produzirá nos próximos anos. Sim! Exatamente isso que você ouviu amigo marvelete e incauto amigo "estou só de passagem", já sabemos todos os filmes da Marvel que sairão nos próximos anos. Todos! Todos! #AlegriaEndless Mas o melhor de tudo é que mais filmes de heróis da Marvel também quer dizer mais filmes de heróis de outras editoras. Por que vocês sabem, qualquer ideia que dê infindáveis montes de dinheiro é boa demais para não ser copiada... 

DICA CINEMATOGRÁFICA: The Devils Carnival - Deus e o diabo na terra dos malabares


(...) O riso é a fraqueza, a corrupção, a sensaboria da nossa carne. É o folguedo para o camponês, a licença para o avinhado, mesmo a Igreja em sua sabedoria concedeu o momento de festa, do carnaval, da feira, desta poluição diurna que descarrega os humores e permite outros desejos e outras ambições...Mas o riso permanece coisa vil(...) 
O Nome da Rosa. Eco, Umberto

Creio que a maior parte das pessoas gosta de manter durante seu cotidiano uma certa segurança, um senso de previsibilidade. Filmes e séries são o melhor exemplo disso. Normalmente precisamos da opinião de um amigo, de um blogueiro de confiança(Moi) ou, em resumo, de um terceiro(Euzinho novamente) para podermos decidir se vamos ou não empreender nessas obras um pouco de nosso precioso e limitado tempo. Deixe-se claro aqui, obviamente, que encaro o tempo, o nosso tempo, como algo extremamente limitado. Infelizmente somos seres finitos e finitas são nossas ações e nossas possibilidades de interação, ou seja, finitos são os filmes, séries e até mesmo livros que podemos ter contato em nossas vidas. Dessa forma, fica evidente que toda vez que empreendemos tempo na leitura de um livro ruim ou de um filme medíocre, perdemos para sempre a possibilidade de assistirmos ou lermos algo realmente válido. No entanto, ao mesmo tempo que a segurança nos trás a previsibilidade, ela também limita nossas possibilidades de escolha, fazendo com que muitas vezes não vejamos um bom filme, apenas porque esse não é muito conhecido. Dessa forma, é necessário sempre um certo pioneirismo, sempre uma certa impavidez, para não ficarmos estagnados em um mesmo nicho artístico para sempre. E foi em um desses temerários arroubos que conheci o musical do qual vim falar hoje, The Devil's Carnival.

Já de início, confesso que comecei a assistir ao dito filme com expectativas muito baixas, na verdade, eu quase tinha a certeza que ele seria uma catástrofe(o que talvez explique o fato de eu ter gostado tanto dele no final). Só para se ter uma ideia, o diretor do filme, Darren Lynn Bousman, dirigiu também Jogos mortais 2, Jogos mortais 3 e Jogos mortais 4, ou seja, ele dirigiu todos os longas da franquia que eu não gosto! Mais ainda, ele foi o responsável, ao menos na minha simplória opinião, por destruir parte do charme do filme original para toda a posteridade! Ou seja, ele ferrou com meu filme(tudo bem, parei com o choro)!!! Também não deixo de notar que é bem visível que o filme foi feito com um orçamento meio apertado. Sério, a gente sempre repara nisso... particularmente em tempos de produções tão faraônicas quanto atualmente. No entanto, a despeito do diretor ou do dinheiro que foi gasto para produzir o longa, o que temos no fim é uma ideia excelente, um roteiro extremamente palatável, boas interpretações e uma trilha sonora(é um musical afinal de contas) absolutamente invejável, em resumo, temos um excelente, embora excêntrico, filme.


E quando falo excêntrico não estou exagerando nem um pouco. O enredo, em seu plot mais básico, mistura as fábulas de Esopo e a mítica cristã ao som de traquinagens e melodias circenses. Sim, céu e inferno são retratados aqui como um grande circo. Na verdade, apenas o inferno, porque não temos mais do que um mero vislumbre da terra dos justos. No entanto, o inferno, onde se passa toda a trama, esse sim é um autêntico circo, e não falo apenas no sentido metafórico. Os demônios são todos retratados no filme como artistas de um show itinerante, sendo que as torturas dadas aos pecadores se constroem ao redor das apresentações que esses artistas/demônios realizam. Mas o mais interessante, é que esses números protagonizados por pecadores e demônios não só se constroem a partir do "pecado capital" que levou o condenado à inglória vida do abismo, mas também  são uma recriação de conhecidas fábulas. Fábulas essas, que exercem uma importância imensa na trama, já que os citados pecados não são nada mais do que a aplicação prática da pequena lição moral que existe ao fim de cada história criada por Esopo. 
Mas imagino que estou sendo um pouco confuso, então darei um exemplo: O primeiro número a ser apresentado conta a história de Tamara, uma mulher cujo principal pecado foi sempre confiar demais nas pessoas, mesmo que essas fossem claramente não confiáveis(inclusive, ela foi morta por seu namorado bad boy). No inferno, seu tormento/número se constrói a partir do conto do sapo e do escorpião, história essa que tem como moral exatamente não confiar, não depositar afeto ou confiança em absolutamente qualquer um. Por obvio, sei que nesse exato momento alguns leitores devem estar se perguntando que diabos de história com sapos e escorpiões é essa. Então, de forma breve, lhes narro a fábula: Durante a época das chuvas, um pequeno riacho que cortava um bosque se transformou em um caudaloso rio. Um escorpião que morava na região pediu então ao sapo, um amigo seu, que lhe levasse à outra margem. No entanto, o sapo resistiu quanto à ideia, com medo de ser ferroado. Mas o escorpião era insistente, e acabou convencendo ao sapo de lhe levar ao outro lado do rio. Entretanto, antes que chegasse ao meio do riacho o escorpião picou o sapo, que disse: Por que você fez isso? Ambos vamos morrer agora! Sendo que foi respondido pelo escorpião: Fiz isso porque essa é a minha natureza. 
Poderia ainda tecer mais comentários sobre as outras histórias que forjam a narrativa, no entanto, não quero dar spoilers. Apenas deixo aqui minha mais sincera recomendação ao filme. Como já disse, ele tem um bom roteiro, boas interpretações e uma memorável trilha sonora. A despeito de qualquer coisa, esse é realmente um filme que vale a pena ser assistido!